Alta prevalência e longo período sem sintomas impõem rastreamento precoce do DM2
Na população geral, o diagnóstico da doença pode ser feito tanto pelos testes clássicos quanto pela dosagem de hemoglobina glicada, desde que observados alguns cuidados na interpretação

A Federação Internacional do Diabetes estima que, em 2025, a prevalência de diabetes mellitus (DM) na população brasileira deva ficar em torno de 14% a 20%, superior à dos Estados Unidos no mesmo ano, calculada em 10% a 14%. Essas estimativas, combinadas ao longo período assintomático que caracteriza o tipo 2 da doença (DM2), fundamentam a necessidade de rastreá-la e diagnosticá-la precocemente.Ademais, a estratégia contribui para postergar e até evitar o aparecimento de complicações crônicas do diabetes, que estão diretamente relacionadas ao tempo de hiperglicemia, bem como para identificar e monitorar indivíduos com pré-diabetes. Nessas pessoas, afinal, medidas de modificação de estilo de vida, como a manutenção de uma alimentação saudável e a prática de atividade física, associadas a intervenções medicamentosas, podem retardar ou prevenir a evolução do quadro para diabetes.

A investigação pode ser realizada por meio da medida da glicemia de jejum (GJ), do teste oral de tolerância à glicose com 75 g (TTOG) e, mais recentemente, da dosagem de hemoglobina glicada (HbA1c) (veja texto acima). Na ausência de hiperglicemia inequívoca, resultados condizentes com o diagnóstico em qualquer um desses testes requerem confirmação por uma segunda dosagem. Da mesma forma, o achado de valores discordantes implica a repetição do exame alterado.

Interpretação dos testes para rastreamento de DM2
Glicemia de jejum

Glicemia aos
120 minutos após
75g de glicose

HbA1c


Normal

‹100 mg/dL

‹140 mg/dL

‹5,7%

Pré-diabetes

Glicemia de jejum alterada

100-125 mg/dL

‹140 mg/dL

5,7-6,4%

Tolerância diminuída à glicose

‹100 mg/dL

140-199 mg/dL


Diabetes mellitus

≥126 mg/dL

≥200 mg/dL

≥6,5%



HbA1c: mais uma ferramenta no diagnóstico
Apesar de refletir diretamente a presença de hiperglicemia crônica, a dosagem de HbA1c não era usada para o diagnóstico do diabetes até pouco tempo atrás, sobretudo devido à falta de padronização dos ensaios laboratoriais. A partir de 2010, no entanto, a ADA passou a recomendar a utilização do teste também com essa finalidade, desde que seu valor seja obtido por um método certificado pelo National Glycohemoglobin Standardization Program, como a cromatografia líquida de alto desempenho, usada pela a+ Medicina Diagnóstica.

A HbA1c possui vantagens em relação à glicemia de jejum, embora seja ainda pouco difundida e tenha igualmente limitações. Portanto, trata-se de mais uma ferramenta para auxiliar o clínico na investigação de DM2. Na prática, quando apresenta resultados iguais ou superiores a 6,5%, devidamente confirmados em um segundo teste, aponta o diagnóstico da doença, tanto quanto a GJ ou o TTOG.

Deve-se fazer rastreamento para o DM1?
Em geral, o diabetes mellitus tipo 1 acomete a população mais jovem e tem manifestações clínicas bastante típicas, evolução aguda e aumento abrupto da glicemia, razão pela qual seu rastreamento de rotina na população geral não é preconizado. Corresponde a cerca de 5-10% dos casos de DM e resulta da destruição das células betapancreáticas produtoras de insulina. Em 95% das vezes, a agressão a essas células decorre de processo autoimune, marcado pela ação de autoanticorpos como antidescarboxilase do ácido glutâmico (anti-GAD), antitirosinofosfatase (anti-IA2) e anti-insulina. Contudo, a presença de tais anticorpos não se restringe à população infantojuvenil. Adultos jovens também podem desenvolver a forma mais tardia desse tipo de DM, denominada diabetes autoimune de início tardio. Não raramente, essas pessoas são diagnosticadas como portadoras de DM2, porém diferem da maioria desse grupo por serem geralmente magras e por não apresentarem boa resposta à medicação oral.





Fatores de risco para o DM
• História positiva de diabetes em parente de primeiro grau

• Sedentarismo

• Grupos étnicos de maior risco (afroamericanos, latinos, índios, asiáticos e moradores das ilhas do Pacífico)

• Hipertensão arterial sistêmica (≥140/90 mmHg ou uso de anti-hipertensivo)

• Dislipidemia (HDL-colesterol ≤35 mg/dL e/ou triglicérides ≥250 mg/dL)

• Antecedente de diabetes gestacional ou parto de bebê com peso >4 kg

• Síndrome dos ovários policísticos

• História de doença cardiovascular

• Presença de sinais de resistência à insulina (acantose nigricans)


E diante de alteração na glicemia casual?
Em pacientes com sintomas de diabetes, tais como poliúria, polidipsia e perda de peso inexplicada, valores de glicemia maiores que 200 mg/dL configuram o diagnóstico da doença, razão pela qual não há necessidade de repetição do exame nessa situação. Nos demais casos, porém, uma dosagem alterada deve ser confirmada em outra ocasião.

01 de junho de 2013
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